Custos acima de R$ 6,50 e preços próximos de R$ 4 expõem crise estrutural, falta de contratos e forte concorrência internacional.
A cadeia produtiva da borracha natural no Brasil vive um momento crítico, marcado por prejuízos recorrentes aos produtores, desequilíbrios na estrutura do setor e aumento da concorrência internacional. O alerta é do presidente da Câmara Setorial da Borracha do Ministério da Agricultura, Antônio Carlos Carvalho Gerin, que classifica o cenário como uma “crise silenciosa” com potencial de impactar toda a economia nacional.
Borracha é insumo essencial para a economia
A borracha natural é considerada estratégica para o funcionamento do país, com aplicações que vão desde o transporte até a saúde pública e o cotidiano da população.
Segundo Gerin, a ausência do insumo comprometeria rapidamente atividades essenciais. Pneus, equipamentos hospitalares e até sistemas básicos domésticos dependem diretamente da borracha. “A sua torneira não funcionaria corretamente sem componentes de borracha”, exemplifica.
Produtor rural é o elo mais vulnerável da cadeia
Apesar da importância do setor, o produtor rural é o mais afetado pela atual estrutura da cadeia produtiva.
O cultivo da seringueira exige investimentos de longo prazo, com cerca de dez anos até o início da produção. Após esse período, o produtor passa a operar em um ambiente de alta instabilidade, sem garantias comerciais.
A cadeia é dividida em três etapas: produção no campo, beneficiamento nas usinas e industrialização. No entanto, a ausência de contratos formais entre esses elos fragiliza principalmente quem está na origem.
Falta de contratos gera desequilíbrio no setor
A inexistência de acordos formais de compra e venda entre produtores e usinas cria um cenário de insegurança e distorção de preços.
Sem contratos, a comercialização ocorre de forma pontual, com pouca previsibilidade. Isso permite que compradores definam valores de forma unilateral, deixando o produtor com poucas alternativas.
Preços abaixo do custo tornam atividade inviável
Atualmente, o custo de produção da borracha gira em torno de R$ 6,50 por quilo, enquanto o valor recebido pelo produtor está próximo de R$ 4,00.
Essa diferença torna a atividade economicamente inviável. Mesmo assim, muitos produtores continuam vendendo para evitar perdas totais, já que a borracha não colhida não pode ser armazenada para negociação futura.
Concorrência internacional pressiona mercado interno
Outro fator que agrava a crise é a forte concorrência de países como Malásia, Indonésia e Vietnã.
Esses países operam com custos mais baixos, favorecidos por legislações ambientais e trabalhistas menos rigorosas, além de políticas de subsídios à produção.
No Brasil, a importação segue ativa e protegida por contratos internacionais, garantindo a entrada contínua do produto estrangeiro, independentemente das condições do mercado interno.
Falta de políticas públicas agrava cenário
O setor também enfrenta a ausência de políticas públicas de apoio. Segundo Gerin, programas de subvenção que existiram até 2004 foram descontinuados sem substituição.
A falta de incentivos compromete a competitividade da produção nacional e amplia o desequilíbrio frente ao mercado internacional.
Impactos ambientais e sociais preocupam
Além das perdas econômicas, a crise da borracha traz impactos ambientais e sociais relevantes.
A seringueira possui alta capacidade de captura de carbono e contribui para a sustentabilidade ambiental. No entanto, áreas cultivadas vêm sendo erradicadas devido à falta de rentabilidade.
No campo social, a atividade é importante para a geração de empregos e fixação de trabalhadores no meio rural. Com a queda da rentabilidade, há aumento do êxodo rural e dificuldade de reposição de mão de obra.
Dependência externa acende alerta estratégico
A redução da produção nacional pode aumentar a dependência do Brasil em relação à importação de borracha, o que levanta preocupações estratégicas.
Segundo o presidente da Câmara Setorial, o país já enfrenta desafios semelhantes em setores como combustíveis e fertilizantes, o que reforça a necessidade de atenção ao tema.
Falta de investimentos limita competitividade
Outro ponto crítico é a ausência de investimentos na modernização da indústria nacional de borracha.
Sem avanços tecnológicos e ganhos de eficiência, o setor brasileiro perde competitividade frente aos principais produtores globais.
Continuidade da atividade está ameaçada
Diante desse cenário, a permanência dos produtores na atividade está em risco. Operar com prejuízo contínuo não é sustentável no longo prazo.
A avaliação do setor é de que medidas estruturais são urgentes para reequilibrar a cadeia produtiva, garantir remuneração adequada ao produtor e preservar um insumo essencial para o desenvolvimento econômico do país.
Fonte: Portal do Agronegócio





