Por José Otávio Brito e Moacir Reis
O carvão vegetal constitui um dos combustíveis sólidos mais tradicionais da matriz energética brasileira. Sua utilização ocorre de forma expressiva tanto em atividades industriais quanto no preparo de alimentos, especialmente no churrasco. Essa dupla inserção, industrial e alimentar, confere ao carvão vegetal uma relevância econômica e sociocultural significativa no país.
Apesar dessa importância, o consumo associado ao preparo de alimentos raramente aparece de forma explícita nas estatísticas energéticas nacionais ou nas análises setoriais da matriz de combustíveis. Essa invisibilidade estatística contrasta com a presença cotidiana do carvão vegetal na cultura alimentar brasileira, particularmente nas regiões onde o churrasco ocupa papel central nos hábitos sociais e gastronômicos. Nesse contexto, o carvão vegetal deixa de ser apenas um insumo energético e passa a integrar um conjunto mais amplo de relações econômicas, culturais e sociais.
O carvão vegetal deve ser analisado não apenas como um insumo energético isolado, mas como elemento estruturante de uma cadeia produtiva mais ampla que integra atividades florestais, industriais e comerciais, com Mato Grosso do Sul se inserindo claramente nesse cenário. Neste estado, o carvão vegetal possui importância econômica em dois grandes segmentos: na cadeia siderúrgica baseada na produção de ferro-gusa e no preparo de carnes em churrasco, atividade amplamente disseminada na cultura regional.
Estimativas baseadas em estatísticas setoriais relacionadas à frequência de consumo de carne em churrasco e aos hábitos alimentares da população indicam que o consumo estadual e anual de carvão vegetal associado ao preparo doméstico de churrasco possa situar-se entre 60 mil e 70 mil toneladas. Esse carvão vegetal é comercializado predominantemente no mercado varejista, em embalagens de pequeno volume destinadas ao consumidor final.
Esse formato de comercialização resulta em um importante processo de agregação de valor ao produto. Diferentemente do carvão vegetal destinado ao uso industrial, geralmente comercializado em grandes volumes e com menor valor unitário, o carvão destinado ao preparo de alimentos alcança preços significativamente superiores. Tendo como referências dados do comércio varejista, estima-se que essa cadeia de comercialização possa movimentar, anualmente, cerca de R$ 325 milhões por ano no estado.
No setor siderúrgico, o carvão vegetal é utilizado como agente redutor na produção de ferro-gusa, constituindo um insumo fundamental para essa importante atividade industrial.
A utilização do carvão vegetal nesse processo representa também um diferencial relevante do ponto de vista ambiental, uma vez que se trata de um insumo de origem renovável, diferentemente do coque mineral empregado em outras rotas siderúrgicas. Isso agrega um valor intangível ao produto industrial final, permitindo que a produção estadual atenda a padrões rigorosos de sustentabilidade e certificação, com enormes potenciais para novos mercados e aumento da rentabilidade dos produtores locais.
Estimativas setoriais indicam que o consumo anual de carvão vegetal na siderurgia do Mato Grosso do Sul seja da ordem de 450 mil toneladas, representando uma movimentação financeira aproximada de R$ 490 milhões por ano considerando apenas o valor do carvão.
Entretanto, quando se considera o valor econômico do ferro-gusa produzido a partir desse insumo, a dimensão econômica da cadeia produtiva torna-se significativamente maior. Considerando a produção estimada de cerca de 550 mil toneladas de ferro-gusa por ano no estado, o valor econômico anual associado à tal produção encontra-se na ordem de R$ 1,2 bilhões.
Para se ter uma ideia da dimensão desse mercado, esse valor corresponde a aproximadamente 61% de todo o faturamento da suinocultura do Mato Grosso do Sul, e é equivalente ao gerado pela indústria de moagem de cereais (exceto soja) e a panificação do estado.
Apesar da sua relevância econômica, o carvão vegetal ainda permanece relativamente invisível no debate público e nas políticas setoriais, muitas vezes sendo percebido como uma atividade secundária, quando na realidade constitui um componente significativo da economia regional.
Os dados evidenciam que, embora o setor siderúrgico concentre os maiores volumes físicos de consumo de carvão vegetal, o segmento associado ao preparo de churrasco apresenta uma capacidade proporcionalmente maior de geração de valor econômico por unidade de produto. Nesse contexto, deve-se ressaltar que no segmento ligado ao preparo do churrasco, quase que toda riqueza permanece dentro do próprio estado, envolvendo uma ampla rede de agentes econômicos locais. Entre esses agentes destacam-se produtores de carvão vegetal, pecuaristas, frigoríficos, supermercados, açougues, distribuidores de carvão vegetal, fornecedores de bebidas e outros insumos, além do próprio consumidor final.
Com base em dados da IBÁ – Indústria Brasileira de Árvores, SEMADESC – Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul e informações setoriais, pode-se estimar que a cadeia produtiva do carvão vegetal no Estado do Mato Grosso do Sul gere cerca de 11 mil postos de trabalho, computando-se apenas os empregos diretos. A produção do carvão comporta a maior parcela (90%), com o restante correspondendo aos postos de trabalho diretamente envolvidos somente no processamento interno das plantas industriais do ferro-gusa. Tendo ainda como referência que outras 3,2 vagas sejam geradas nos setores de transporte, manutenção, embalagens e comércio varejista atrelados ao campo e à indústria de transformação florestal, indiretamente estariam sendo gerados mais 35,2 mil postos de trabalho.
Historicamente, a atividade carvoeira no Brasil tem sido frequentemente associada a estigmas e percepções negativas. Essas percepções acabam contribuindo para a desvalorização social e econômica do carvão vegetal, bem como do produtor e dos agentes envolvidos em sua cadeia de distribuição. Entretanto, quando analisado no contexto mais amplo de sua cadeia produtiva, o carvão vegetal revela-se um insumo estratégico, com capacidade de gerar valor econômico significativo e de contribuir para a dinamização de diversas atividades produtivas.
Além da dimensão econômica, deve-se considerar também a forte dimensão sociocultural associada ao consumo de carvão vegetal no preparo de churrasco. No Mato Grosso do Sul, assim como em diversas outras regiões do país, o churrasco constitui uma prática social amplamente disseminada, presente em encontros familiares, celebrações comunitárias e eventos sociais diversos. Centenas de milhares de pessoas participam direta ou indiretamente dessas atividades, nas quais o carvão vegetal desempenha papel essencial.
Outro ponto interessante a ser destacado é o da relação direta entre o consumo de carvão vegetal no preparo de churrasco e a forte presença da pecuária de corte no Mato Grosso do Sul. O estado apresenta elevada participação na produção nacional de carne bovina. Parte expressiva dessa produção destina-se aos mercados externos, mas uma parcela relevante permanece no mercado interno e integra os hábitos alimentares regionais.
O consumo de carne bovina em cria, portanto, cria uma conexão econômica indireta entre a cadeia da pecuária e o mercado de carvão vegetal, uma vez que a demanda por carne preparada na brasa constitui um dos principais fatores de sustentação do consumo de carvão destinado à gastronomia. Estima-se que até 20% da chamada carne bovina nobre produzida no estado seja destinada ao churrasco doméstico local.
Outro aspecto relevante refere-se à dimensão sanitária e alimentar desse consumo. O carvão destinado ao preparo de alimentos está diretamente relacionado à qualidade do que é ingerido pela população, o que reforça a necessidade de atenção quanto à sua qualidade, origem e condições de produção.
Diante desse conjunto de fatores, torna-se fundamental ampliar a atenção institucional e setorial dedicada ao tema do carvão vegetal no Mato Grosso do Sul. Algumas iniciativas podem contribuir de forma decisiva para o fortalecimento e a valorização dessa cadeia produtiva, entre as quais se destacam: a) realização de diagnósticos mais precisos da produção e do mercado estadual de carvão vegetal; b) estímulo à certificação e à rastreabilidade do produto; c) definição de padrões específicos de qualidade para o carvão; d) avaliação mais detalhada do segmento de uso gastronômico do carvão; d) valorização econômica da produção sustentável de carvão vegetal.
O reconhecimento e a valorização dessa cadeia produtiva podem representar uma oportunidade concreta de agregação de valor ao produto, aumento da renda dos produtores e fortalecimento de um setor que integra dimensões energéticas, econômicas, sociais e culturais da sociedade sul-mato-grossense.