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International Paper conclui venda de unidade de fibras por US$ 1,5 bilhão

Operação faz parte da estratégia de reestruturação global da companhia e foi bem recebida pelo mercado financeiro.

A International Paper concluiu a venda da sua unidade de Global Cellulose Fibers (GCF) para fundos afiliados ao grupo American Industrial Partners (AIP) pelo valor de US$ 1,5 bilhão.

A transação integra o plano de reestruturação da companhia, que busca concentrar suas operações em segmentos estratégicos com maior retorno e eficiência operacional.

Além do valor principal da operação, o acordo prevê a emissão de ações preferenciais com preferência de liquidação, estimadas em aproximadamente US$ 190 milhões, destinadas à International Paper como parte da compensação financeira.

A unidade Global Cellulose Fibers é especializada na produção de polpa de celulose utilizada principalmente em produtos de higiene e cuidados pessoais, como papel tissue, toalhas e fraldas. Em 2024, o segmento registrou receita aproximada de US$ 2,3 bilhões, já considerando o encerramento de algumas fábricas antes da conclusão da venda.

A operação envolve nove unidades industriais e oito escritórios regionais, com cerca de 3.300 funcionários distribuídos globalmente, que passam agora a integrar a estrutura administrativa sob gestão da American Industrial Partners.

A International Paper mantém atuação histórica no Brasil há mais de duas décadas. No país, a companhia foi responsável por operações industriais que deram origem à atual empresa Sylvamo, incluindo unidades localizadas em São Paulo e em Três Lagoas, município reconhecido como um dos principais polos da indústria de celulose do Brasil.

Embora a venda da GCF não envolva diretamente ativos brasileiros, analistas avaliam que o movimento reforça uma tendência global de reorganização do setor, com impactos indiretos sobre estratégias de investimento e competitividade em mercados como o brasileiro.

No mercado financeiro, a operação foi interpretada de forma positiva. As ações da International Paper, negociadas sob o ticker IP na Bolsa de Nova York, apresentaram movimentação positiva no curto prazo, refletindo a leitura de que a venda fortalece o caixa da companhia e melhora seu foco operacional.

A empresa possui atualmente valor de mercado superior a US$ 22 bilhões, e investidores acompanham com atenção os próximos resultados financeiros, que devem trazer maior clareza sobre os efeitos da reestruturação em andamento.

A divulgação do próximo balanço está prevista para o fim de janeiro, quando o mercado deverá avaliar de forma mais precisa o impacto da alienação da unidade de fibras no desempenho global da companhia.

A indústria de celulose no Brasil não é apenas um pilar da economia nacional; é um ecossistema bilionário em constante expansão, com investimentos projetados em mais de R$ 100 bilhões na próxima década. O epicentro desse crescimento, o Vale da Celulose em Mato Grosso do Sul, concentra os maiores players globais, uma vasta cadeia de fornecedores e milhares de profissionais. No entanto, este gigante carece de um elo de comunicação centralizado e estratégico que conecte seus diversos agentes e traduza sua importância para a sociedade.

Informações: Vale da Celulose


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Governo do Mato Grosso supera entraves e assina contrato da Rota da Celulose na segunda

Projeto atravessou dois anos de ajustes, leilão vazio, troca de vencedor e disputa judicial até a formalização.

Depois de um processo idealizado em 2023, marcado por falta de interessados, reformulações no projeto, disputas administrativas e judicialização, o Governo de Mato Grosso do Sul assina na próxima segunda-feira (2) o contrato de concessão da chamada Rota da Celulose. A concessão será formalizada com a Concessionária Caminhos da Celulose, consórcio liderado por fundo de investimentos da XP, que assumirá a recuperação, operação, manutenção, conservação e ampliação de capacidade de 870 quilômetros de rodovias estaduais e federais pelo prazo de 30 anos.

O Governo de Mato Grosso do Sul assinará na próxima segunda-feira (2) o contrato de concessão da Rota da Celulose com o consórcio Caminhos da Celulose, liderado por fundo de investimentos da XP. O projeto prevê a gestão de 870 quilômetros de rodovias estaduais e federais por 30 anos, com investimentos de R$ 6,9 bilhões. O processo, iniciado em 2023, passou por diversos desafios, incluindo um primeiro leilão sem interessados e disputas judiciais. A concessão abrange nove municípios e visa atender regiões com forte atividade econômica, especialmente ligadas à indústria de celulose, setor sucroalcooleiro e agropecuária.

O projeto teve início formal 2023, quando o Governo do Estado lançou um PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse) com o objetivo de estruturar a concessão de rodovias estratégicas localizadas nas regiões central, leste e do Bolsão sul-mato-grossense. A proposta envolvia trechos das rodovias estaduais MS-040, MS-338 e MS-395, além das federais BR-262 e BR-267, totalizando 869 quilômetros de extensão.

O corredor rodoviário atravessa nove municípios: Campo Grande, Ribas do Rio Pardo, Santa Rita do Pardo, Bataguassu, Água Clara, Três Lagoas, Nova Alvorada do Sul, Nova Andradina e Anaurilândia e foi concebido para atender regiões com alto fluxo de veículos e forte atividade econômica, especialmente ligadas à indústria de celulose, ao setor sucroalcooleiro e à agropecuária.

Desde o início, o governo Eduardo Riedel (PP) tratou o projeto como estratégico para melhorar a infraestrutura logística do Estado, aumentar a competitividade de setores exportadores e reforçar a integração com a Rota Bioceânica, que conecta Mato Grosso do Sul ao Oceano Pacífico.

Governo supera entraves e assina contrato da Rota da Celulose na segunda
Detalhes do projeto da Rota da Celulose em Mato Grosso do Sul (Imagem: Reprodução)

Com os estudos concluídos, o governo estruturou a concessão e marcou o primeiro leilão para dezembro de 2024, na B3, em São Paulo. O projeto previa cerca de R$ 6 bilhões em investimentos em obras de infraestrutura, incluindo duplicações, além de aproximadamente R$ 3 bilhões em custos operacionais ao longo de 30 anos.

No entanto, o leilão não atraiu interessados. A entrega de envelopes, prevista para o início de dezembro, não ocorreu, e o governo anunciou o reagendamento do certame. Poucos dias depois, confirmou a retirada do projeto da Bolsa.

O governador Eduardo Riedel explicou à Assembleia Legislativa que o momento econômico não favoreceu a concessão, citando a alta do dólar, juros elevados e a saturação do mercado de concessões rodoviárias, com milhares de quilômetros sendo ofertados simultaneamente em todo o país.

Governo supera entraves e assina contrato da Rota da Celulose na segunda
Membros do governo estadual e federal batendo martelo na segunda tentativa do leilão (Foto: Divulgação/Governo de MS)

Após o fracasso da primeira tentativa, o governo estadual iniciou uma nova rodada de consultas ao mercado e promoveu ajustes no edital. As mudanças não alteraram a extensão das rodovias concedidas nem o escopo das obras, tampouco os valores-teto de pedágio, mas modificaram principalmente o cronograma de investimentos.

O alongamento do prazo para execução de parte das obras permitiu diluir os custos ao longo do contrato e melhorar a taxa interna de retorno do projeto, tornando-o mais atrativo aos investidores. A concessão manteve o prazo de 30 anos e a cobrança de pedágio no modelo eletrônico free flow, com 12 pontos de cobrança previstos ao longo da malha.

O projeto ajustado voltou ao mercado e teve novo leilão marcado para 8 de maio de 2025.

Governo supera entraves e assina contrato da Rota da Celulose na segunda
Pontos de cobrança de pedágio no sistema free-flow (sem cabine de cobrança) (Imagem: Reprodução)

Diferentemente da primeira tentativa, o segundo leilão atraiu quatro concorrentes. O Consórcio K&G Rota da Celulose, formado pela K-Infra Concessões e pela Galápagos Participações, apresentou a melhor proposta, com desconto de 9% sobre a tarifa-teto de pedágio, superando o Consórcio Caminhos da Celulose, que ofereceu 8% de desconto.

Apesar da vitória no leilão, o resultado não se consolidou. O Consórcio Caminhos da Celulose entrou com recurso administrativo questionando a habilitação do K&G, alegando que a K-Infra havia perdido seu principal atestado de qualificação técnica após a decretação de caducidade da concessão da BR-393, a Rodovia do Aço, no Rio de Janeiro, por descumprimentos contratuais.

Em agosto de 2025, a Comissão Especial de Licitação acolheu o recurso, declarou o Consórcio K&G inabilitado e convocou o segundo colocado para dar continuidade ao processo. O recurso apresentado posteriormente pelo K&G foi rejeitado, confirmando a exclusão definitiva do grupo.

Após a perda da concessão, a K-Infra recorreu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, por meio de mandado de segurança, pedindo a suspensão da licitação e o impedimento da assinatura do contrato. A empresa alegou que a desclassificação teria se baseado em critérios supervenientes e não previstos no edital.

O pedido liminar foi negado pelo TJMS. Na decisão, o Judiciário entendeu que a paralisação do processo poderia causar prejuízo maior ao interesse público, ao atrasar investimentos e melhorias na infraestrutura rodoviária do Estado. Com isso, foi mantida a homologação do resultado em favor do Consórcio Caminhos da Celulose.

Em setembro de 2025, a Comissão Especial de Licitação considerou habilitado o Consórcio Caminhos da Celulose, após análise da documentação apresentada. O grupo comprovou capacidade jurídica, fiscal, econômico-financeira e técnica, com experiências anteriores em concessões rodoviárias.

Com a habilitação confirmada, o processo entrou na fase final, restando apenas trâmites burocráticos e o cumprimento das exigências prévias à assinatura do contrato. Mesmo com ações judiciais ainda em curso, o governo estadual manteve o andamento dos ritos administrativos.

Assinatura e próximos passos

A assinatura do contrato está marcada para a próxima segunda-feira (2), às 11h, no auditório da Governadoria, no Parque dos Poderes, em Campo Grande. Antes da formalização, representantes da concessionária farão uma apresentação técnica do planejamento da futura operação da Rota da Celulose.

O contrato prevê investimentos totais de R$ 6,9 bilhões ao longo de 30 anos, incluindo duplicações, implantação de acostamentos, terceiras faixas, contornos urbanos, dispositivos de segurança, passagens de fauna e obras de arte especiais. Ao fim das intervenções, toda a malha concedida deverá contar com acostamento.

Com a assinatura, o governo encerra um ciclo iniciado em 2023 e destrava um projeto considerado fundamental para a logística da indústria de celulose, para a integração regional e para a melhoria das condições de tráfego em um dos principais corredores rodoviários de Mato Grosso do Sul.

Informações: Campo Grande News

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Conheça a floresta na Argentina com árvores de mais de 2 mil anos e que corre riscos devido a incêndios

A floresta de lariços do Parque Nacional Los Alerces tem espécie com crescimento extremamente lento e longevidade extraordinária.

O avanço dos incêndios florestais na Serra de Chubut reacendeu o alerta sobre um dos tesouros naturais mais valiosos da Argentina: a antiga floresta de lariços do Parque Nacional Los Alerces, que atrai milhares de turistas do mundo todo anualmente.

Enquanto o fogo continua a arder em diferentes frentes, com mais de 40 mil hectares devastados entre o incêndio que começou dentro do parque e o que avança a partir de Epuyén, a proximidade das chamas coloca em risco um ecossistema emblemático, cujos danos poderão ser irreversíveis mesmo sem o fogo atingir diretamente as áreas mais sensíveis.

Localizado na província de Chubut, no oeste do país, no coração da Cordilheira dos Andes e na fronteira com o Chile, o Parque Nacional Los Alerces foi declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 2017 por seu valor ambiental. Em seus mais de 188 mil hectares, alguns dos últimos trechos contínuos de floresta andino-patagônica permanecem em estado quase intocado, moldados por sucessivas glaciações que formaram morenas, circos glaciais e lagos cristalinos. O parque também abriga pinturas rupestres milenares.

Dentro dessa rede natural encontra-se a antiga floresta de lariços, um bosque dominado pela Fitzroya cupressoides, uma conífera endêmica de crescimento extremamente lento e longevidade extraordinária. Alguns exemplares têm mais de 2000 anos, o que os torna as árvores mais antigas da América do Sul. Seu valor não é apenas biológico. Por quê? Essas florestas testemunham a história do clima e do meio ambiente.

Aviso que já estava implícito

A preocupação com os incêndios no Parque Nacional Los Alerces não é recente. Em 2024, a UNESCO já havia destacado o impacto do fogo na área protegida, alertando para a vulnerabilidade deste Patrimônio Mundial.

Nesse contexto, a organização internacional deixou clara a importância excepcional do parque para a conservação das florestas andino-patagônicas e a necessidade de fortalecer as capacidades de prevenção e resposta diante dos incêndios florestais cada vez mais frequentes e intensos.

Dois incêndios ativos e uma região em estado de emergência

Apesar dos esforços para prevenir tais incidentes, a situação atual expõe mais uma vez essas vulnerabilidades. O incêndio que começou há mais de um mês e meio dentro do Parque Nacional Los Alerces permanece fora de controle e, impulsionado principalmente por ventos fortes e condições climáticas extremas, se alastrou em direção a áreas próximas a Cholila e Villa Lago Rivadavia.

Entretanto, o incêndio que começou em Puerto Patriada, em Epuyén, já devastou mais de 22 mil hectares e criou novas frentes de fogo que cercam cidades, campos agrícolas e áreas de alto valor ambiental. Bombeiros oficiais e voluntários trabalham quase incansavelmente, enquanto moradores evacuam animais e protegem suas casas em uma situação imprevisível e em constante mudança.

Floresta Milenar de Alerzal em Risco

Para Esquel e toda a região andina, a ameaça à floresta de lariço tem um significado que transcende o ambiental.

— Significa nossa falha como sociedade em cuidar das áreas naturais — disse à La Nacion Claudia Tabares, formada em turismo, ex-secretária de Turismo de Esquel, ex-delegada regional da Secretaria de Turismo e Áreas Protegidas e professora da Universidade Nacional da Patagônia San Juan Bosco.

— É uma mistura de sentimentos, entre tristeza e impotência, por causa do que isso representa para a natureza, para a população local e para os prestadores de serviços turísticos. Infelizmente, nos últimos anos, essa história continua se repetindo; não se trata apenas da ameaça à antiga floresta de lariços, mas de todo um ecossistema natural que está queimando.

'El Abuelo' (O Avô), lariço mais antigo do parque, tem cerca de 2620 anos e é um dos maiores símbolos da área protegida — Foto: Cortesia do Turismo de Esquel
‘El Abuelo’ (O Avô), lariço mais antigo do parque, tem cerca de 2620 anos e é um dos maiores símbolos da área protegida — Foto: Cortesia do Turismo de Esquel

Embora as chamas ainda não tenham atingido completamente as áreas mais vulneráveis ​​da floresta de lariços, especialistas alertam que o risco não se limita ao avanço direto do fogo.

— O fogo é imprevisível. Há cerca de dez dias, falava-se em queimadas controladas, e ontem vimos moradores chorando porque perderam seu gado — observou Tabares.

— Além do que possa acontecer, o dano já está feito. A floresta de lariços é única devido à sua concentração de árvores antigas com mais de 2000 anos, mas todo o parque tem centenas de anos. Se uma árvore de 400 anos queimar, como as que estão queimando agora, é igualmente preocupante, já que várias gerações nunca mais verão aquela floresta.

Turismo, conservação e gestão em debate

A situação de emergência também suscita debates sobre como conciliar a conservação de um ecossistema extremamente frágil com o turismo, especialmente durante a alta temporada de verão. Milhares de visitantes exploram as trilhas, lagos e áreas de camping do parque, atraídos por uma paisagem que agora está ameaçada.

Para Tabares, o equilíbrio não se resume apenas a restringir o acesso.

— Ele é alcançado por meio de gestão e supervisão, como acontece com todos os sítios de patrimônio natural abertos ao turismo. Simplesmente proibir e estabelecer regras não basta. Os visitantes precisam estar cientes da importância da interpretação ambiental, por exemplo, e ter os recursos humanos e materiais necessários para cuidar adequadamente de um Parque Nacional e Patrimônio Mundial.

Nesse sentido, ele questionou as limitações estruturais que são expostas a cada incêndio.

— As áreas protegidas são importantes para evitar o impacto do turismo, mas também devemos considerar a criação de vias de acesso para os bombeiros ou a limpeza de áreas para impedir que o fogo se alastre tanto. Se os guardas florestais não tiverem combustível, ferramentas ou salários adequados, dificilmente estarão preparados para evitar essas situações. Não basta simplesmente designar áreas; precisamos apoiá-las com financiamento e gestão.

As consequências de uma potencial perda de floresta nativa ou de bosques de lariço vão além do âmbito ambiental e impactam diretamente a identidade turística de Esquel e de toda a região andina. Mesmo assim, Tabares propõe uma perspectiva de longo prazo:

— Como região, já vivenciamos cinzas vulcânicas e outros incêndios, e também superaremos isso. As empresas locais devem incorporar em suas narrativas o que aconteceu, o trabalho realizado no combate aos incêndios e o número de bombeiros de todo o país que participaram. Essa também é uma forma de conscientizar e criar um senso de pertencimento.

Segundo o especialista, os incêndios devem servir de alerta.

— Este tem de ser um ponto de virada na forma como as áreas naturais são geridas. Durante anos, dizia-se que estavam a ser cuidadas, mas não havia qualquer preparação para as defender contra o fogo. Gostamos de criar hierarquias e distinções, mas isso não se reflete nos orçamentos e nas ações. O verdadeiro valor não está nos títulos, mas na responsabilidade inerente ao cuidado dos ambientes que representam — destacou.

Entretanto, o Escritório de Turismo de Esquel confirmou que o fogo mudou de direção, permitindo que a árvore, conhecida como “El Abuelo” (O Avô), com mais de 2600 anos, escapasse do perigo. Contudo, as autoridades enfatizaram que a situação é instável e depende muito da possibilidade de novos focos de incêndio dentro do parque e da direção do vento.

Este último fator é crucial para a propagação do fogo para outra área, afastando-se tanto da árvore alerce quanto da região onde se localiza a geleira Torrecillas. Bombeiros e equipes do governo nacional e da província de Chubut continuam trabalhando de forma coordenada na área, com o objetivo de conter o avanço do fogo em outros setores do Parque Nacional Los Alerces.

Informações: O Globo

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Restaurar florestas é investimento em segurança econômica

Brasil pode fazer da restauração florestal um seguro verde contra os efeitos da crise climática.

agronegócio e o governo brasileiros já provaram que sabem enfrentar desafios complexos com planejamento, coordenação e engajamento. A trajetória de erradicação da febre aftosa – uma doença que afetava o rebanho bovino – é um exemplo claro. Pressionado por restrições de acesso ao mercado internacional, o Brasil estruturou o Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PNEFA) e, em poucas décadas, saiu da vulnerabilidade sanitária para se tornar referência global. Essa transformação abriu mercados e fortaleceu a pecuária nacional.

A lição central desse processo — resposta coerente e sustentada a uma barreira concreta — deve agora inspirar uma nova agenda: fazer da restauração florestal um seguro verde contra os efeitos da crise climática.

Assim como a aftosa comprometia a competitividade da carne bovina, os eventos extremos já prejudicam a produtividade agrícola, afetam a segurança hídrica e colocam em risco a estabilidade econômica do país. Segundo pesquisa do Banco Central em 2024, 44% das instituições financeiras relataram impactos desses eventos, contra 17% em 2023.

As consequências incluem paralisações produtivas, perda de renda dos clientes e maior demanda por renegociação de crédito, elevando o risco sistêmico no setor.

Uma das soluções-chave para a crise climática no Brasil é reflorestar, pois florestas protegem o solo, promovem a geração de chuvas e permitem a continuidade da produção. Por exemplo, um estudo liderado pela Universidade de São Paulo mostrou que 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Floresta Amazônica foram causados pelo desmatamento.

O Brasil tem uma “frente de expansão” óbvia para a restauração florestal com escala sem pressionar a produção agropecuária: pastagens degradadas. A rede MapBiomas mostrou que, embora a qualidade média tenha melhorado, ainda havia 40 milhões de ha de pastagens severamente degradadas em 2023 ou o equivalente a duas vezes o território do Paraná.

A experiência do plano contra a febre aftosa mostra que mudanças estruturais exigem metas de longo prazo, fases bem definidas e coordenação nacional. O Brasil já desenvolveu o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), mas não destinou recursos em escala compatível, nem estruturou uma linha de financiamento de longo prazo que o viabilize plenamente. Isso precisa mudar.

Outro aprendizado do PNEFA é a corresponsabilidade dos produtores. A adesão dos pecuaristas foi decisiva para o sucesso da campanha de vacinação contra a febre aftosa. Da mesma forma, a adesão dos agricultores é indispensável para escalar o reflorestamento. Mas, para isso, é essencial incentivos claros e governança: crédito condicionado ao desempenho produtivo e ambiental, pagamentos por serviços ambientais, certificações com valor de mercado e monitoramento de desempenho.

O Brasil já subsidia o setor rural por meio de crédito público e instrumentos como CRA e LCA, que isentam pessoas físicas de Imposto de Renda. Esses incentivos barateiam o capital com impostos pagos por toda a população. Parte desses recursos pode — e deve — ser usada para financiar o seguro verde: a restauração da vegetação nativa. Dinheiro público deve gerar benefício público — como solo conservado, água disponível e produção estável. É hora de redesenhar os incentivos.

Outras regras brasileiras podem induzir o reflorestamento. O Código Florestal é claro quanto às obrigações de recomposição de áreas desmatadas ilegalmente. A arrecadação de multas ambientais poderia também gerar recursos para investir na restauração.

Para tanto, é necessário tornar a cobrança efetiva após decisões do STJ que confirmaram a validade de R$ 29 bilhões em multas do Ibama. A arrecadação de metade desse valor permitiria reflorestar cerca de 1,5 milhão de hectares.

A COP30, que ocorrerá em Belém, onde países discutirão políticas para lidar com a crise climática, também abre uma oportunidade estratégica. O Brasil tem proposto acordos de financiamento internacional para florestas. Se conseguir, o país poderia aumentar ainda mais a escala do reflorestamento.

Outra abordagem seria direcionar parte dos recursos da exportação para o seguro verde. As exportações agropecuárias e florestais de reflorestamento em 2024 chegaram a cerca de R$ 954 bilhões. Um programa que arrecadasse 1% sobre esse valor para o seguro verde, geraria R$ 9,5 bilhões, o que seria suficiente para restaurar quase um milhão de hectares por ano.

Mas, mesmo sem depender de um consenso internacional imediato e de novos acordos, o país pode começar com os recursos internos.

O monitoramento é outro pilar central. O sucesso do PNEFA se apoiou em auditorias e credibilidade internacional. No caso ambiental, o Brasil já dispõe de ferramentas modernas e confiáveis, como o MapBiomas e os sistemas de satélite do INPE, que permitem acompanhar o avanço da restauração rapidamente e com custos baixos. Conectar incentivos a dados públicos verificáveis fortalece a confiança de mercados, consumidores e investidores.

Restauração também gera emprego e renda. Levantamentos do WRI Brasil estimam 0,42 emprego por hectare restaurado (42 empregos a cada 100 hectares), com forte potencial para cadeias de madeira manejada, castanha, cacau e açaí. Essa é uma vantagem concreta em um mundo em que automação e inteligência artificial tendem a transformar (e em parte substituir) ocupações.

Por exemplo, o reflorestamento de dois milhões de hectares por ano geraria cerca de 850 mil empregos considerando a densidade de empregos estimado pelo WRI.

Em resumo, restaurar florestas não é um custo, mas um investimento em segurança econômica. Se a erradicação da febre aftosa abriu mercados e possibilitou a expansão da pecuária brasileira, o reflorestamento pode proteger o setor de riscos climáticos e abrir novas frentes de investimento nas áreas já degradadas. O seguro verde é viável, urgente e necessário.

Falta tratá-lo com a mesma determinação estratégica com que o próprio setor rural com coordenação da política pública já venceu outros desafios.

*Paulo Barreto é pesquisador associado do Imazon / Artigo Globo Rural

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Silvicultura impulsiona produção na agroindústria e no campo

Florestas plantadas vão além da celulose e do carvão vegetal e colaboram para a segurança alimentar.

A relação entre florestas plantadas e produção de alimentos, embora não pareça evidente, é mais presente na rotina dos brasileiros do que se imagina. Além de fornecer matéria-prima para celulose, papel e carvão vegetal, as florestas plantadas desempenham papel estratégico na agroindústria como fonte de energia e insumo produtivo, garantindo alimentos com qualidade e sustentabilidade na mesa dos consumidores. Em Minas, estado com a maior área de florestas plantadas do Brasil, com 2,3 milhões de hectares, o fortalecimento da cadeia da silvicultura é uma das prioridades do Governo estadual, com foco também na contribuição para a segurança alimentar.

A Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), por meio da Superintendência de Fomento Florestal, desenvolve diferentes ações para impulsionar a cadeia. O trabalho tem como foco a ampliação das florestas produtivas, também chamadas de “florestas pensadas”, em especial, nas áreas de pastagem degradadas, colaborando para recuperação ambiental.  Entre as ações, estão o apoio e fomento aos produtores florestais, a busca de parcerias públicas e privadas e a interlocução para soluções de entraves na produção. 

Florestas planadas de eucaliptos

“O uso da madeira advinda das florestas plantadas é fundamental para garantir a segurança agroalimentar, preconizada pelos governantes globais, já que muitos alimentos que chegam à nossa mesa dependem da madeira em alguma fase do seu processo produtivo”, diz a superintendente de Fomento Florestal da Seapa, Taiana Arriel.

Segundo Taiana Arriel, cresce o uso da madeira de reflorestamento como fonte energética e insumo produtivo na agroindústria, em especial a que produz alimentos. “A madeira e seus derivados, especialmente o cavaco de eucalipto e a lenha, são utilizados como biomassa para geração de energia térmica em laticínios, granjas, frigoríficos, usinas de beneficiamento, fábricas de ração animal, entre outros”, enumera.

Madeiras de eucaliptos são usadas na agroindústrias de alimentos

O cavaco é usado no aquecimento de caldeiras, pasteurização do leite, secagem de grãos, esterilização de equipamentos e climatização de granjas, substituindo combustíveis fósseis e reduzindo emissões de carbono na atmosfera. No campo, é aplicado como cobertura de solo, no controle de erosão e na manutenção da umidade, beneficiando a produção agrícola e pecuária.

“Outro uso importante está nas camas de animais em granjas, aviários e estábulos. O cavaco garante absorção, conforto térmico e higiene, melhorando o bem-estar e a produtividade de aves, bovinos e equinos. Também é empregado na produção de carvão vegetal industrial e no ajuste de caldeiras de carbonização, atendendo indústrias alimentícias que utilizam calor controlado”, completa a superintendente.

Avicultura

Empresas da região Centro-Oeste de Minas, referência na produção de frango e outros alimentos, destacam-se como grandes consumidoras de madeiras de florestas plantadas, para mover as suas engrenagens. O uso começa nos aviários, onde as lenhas abastecem as fornalhas que aquecem os galpões. “Nas duas primeiras semanas de vida das aves, a lenha de reflorestamento é imprescindível para garantir um ambiente apropriado aos animais, antes de serem levados para o abate”, diz Ronam Antônio da Silva, líder de avicultura da JMC Agroindustrial, em São Sebastião do Oeste.

As lenhas abastecem as fornalhas, na avicultura

Taiana Arriel diz que uma das agroindústrias na região apresenta uma demanda de madeira de cerca de 180 m³ por dia, com previsão de chegar a 560 m³ em 2030. “A empresa adquire a lenha e realiza o processamento no próprio empreendimento, transformando-o em cavaco. Esses dados evidenciam o papel estratégico do setor florestal e reforçam a necessidade de políticas públicas que fortaleçam esta cadeia produtiva”, destaca.

Avicultura

O uso da lenha pelas agroindústrias pode ser medido pela produção da Madeiras Mata Verde, empresa que mantém floresta de eucalipto e usina de tratamento da madeira, em Itapecerica.  São cerca de 1.500 ha plantados, de onde são colhidos, por mês, 2.000 m3 de madeira, lenha e carvão vegetal das florestas próprias. Enquanto o carvão vai para as siderúrgicas, a madeira tratada vai para a construção civil, agricultura e pecuária. “A lenha, vendida para as granjas e abatedouros da região, chega a corresponder a 40% da produção”, diz o fundador da empresa, Paulo Moraes.

Infográfico Silvicultura

Silvicultura em Minas

As florestas plantadas são a maior cultura agrícola de Minas, superior a 2 milhões de hectares. Dos 853 municípios mineiros, 811 deles desenvolvem a silvicultura. Minas detém 22% da área total de florestas plantadas no Brasil, que é de 10,3 milhões de hectares.

A agroindústria florestal do estado protege uma área de vegetação nativa equivalente a 40 vezes o tamanho de Belo Horizonte. Cada mineiro possui, em média, 187 árvores plantadas pela agroindústria florestal.

Jornalista responsável: Márcia Queiroz / Emater

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