Por Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).
O problema central do setor florestal brasileiro não é técnico. É institucional e estratégico. Falta hoje uma instância capaz de organizar o setor como sistema, conectando florestas nativas e florestas plantadas sob um mesmo horizonte de decisão e conferindo maior coerência ao diálogo entre governo, mercados e sociedade.
Embora ocupe um único território, o setor permanece organizado de forma fragmentada. Florestas nativas e florestas plantadas integram o mesmo sistema produtivo, ambiental e territorial, mas são tratadas de maneira dissociada pelas políticas públicas federais. Essa dissociação não é apenas conceitual: gera sobreposições regulatórias, reduz a eficiência das cadeias produtivas, enfraquece a governança do setor e limita a conversão dos ativos florestais em vetores de desenvolvimento sustentável.
Na prática, a vegetação nativa é tratada predominantemente sob uma lógica de controle, proteção e autorização de uso, enquanto a silvicultura com florestas plantadas é reconhecida como atividade produtiva vinculada à política agrícola e industrial. O Código Florestal estrutura o uso da vegetação nativa, ao passo que instrumentos de fomento, crédito e organização de cadeias produtivas dão suporte à silvicultura. Trata-se, portanto, de regimes distintos aplicados ao mesmo espaço físico, decorrentes de arranjos institucionais diferentes.
Dessa diferença de enquadramento decorre um efeito direto sobre a ação do poder público. Instrumentos eficazes para um segmento não respondem, necessariamente, às exigências do outro. As florestas plantadas estão inseridas em cadeias produtivas estruturadas — papel e celulose, painéis de madeira, biomassa, carvão vegetal — que operam com planejamento de longo prazo, escala, logística integrada e previsibilidade econômica. Essas cadeias se organizam como atividades econômicas contínuas, com elevada capacidade de mobilização de investimentos privados.
As florestas nativas, por sua vez, operam sob um modelo de governança voltado à gestão, ao controle e à autorização de usos. O manejo florestal sustentável constitui o principal instrumento para a exploração legal e planejada desses recursos, podendo ser aplicado tanto em propriedades privadas quanto em florestas públicas sob regime de concessão. Trata-se de um instrumento técnico inserido em uma lógica regulatória específica, distinta daquela que orienta a silvicultura com florestas plantadas.
Esse distanciamento é frequentemente justificado pelo argumento de que a expansão das florestas plantadas reduz a pressão sobre as florestas nativas. O problema surge quando essa lógica passa a orientar a ação estatal como princípio estruturante, reforçando a percepção de dois mundos: um produtivo e organizado; outro visto apenas sob a ótica da contenção ambiental. Em lugar da integração entre produção e conservação, consolida-se uma lógica de compensação, com efeitos limitados tanto sobre o desenvolvimento econômico quanto sobre a conservação ambiental.
O efeito prático dessa fragmentação é um setor que dialoga com o Estado, o mercado e a sociedade por múltiplas vozes. Florestas nativas e florestas plantadas se organizam em entidades, fóruns e agendas distintas, com baixo nível de articulação estratégica. Isso reduz a capacidade do setor florestal de participar de forma estruturada do processo decisório, justamente quando temas como clima, carbono, bioeconomia, energia e uso do território exigem visão integrada e previsibilidade institucional.
Essa fragmentação também se reflete na comunicação com a sociedade. O manejo florestal sustentável é confundido com o desmatamento ilegal, e os plantios florestais passam a ser associados à ideia de “deserto verde”. Trata-se menos de um problema técnico e mais de uma falha institucional de comunicação pública. Onde a explicação não alcança a sociedade, a percepção se impõe. E dela decorrem a perda de legitimidade pública, a redução do apoio político e a insegurança jurídica.
O desafio, portanto, não é escolher entre florestas nativas ou florestas plantadas. É estruturar uma ação estatal capaz de integrar políticas ambientais, agrícolas, florestais, climáticas e industriais em uma estratégia nacional de desenvolvimento florestal, capaz de alinhar produção, conservação e ordenamento territorial.
Crescer, nesse contexto, é dar consequência prática a essa integração. Não significa expandir um segmento à custa de outro, mas ordenar o setor como unidade, articular políticas hoje dissociadas e conferir-lhe maturidade institucional. Onde essa integração não ocorre, a ação pública produz apenas avanços parciais: fortalece um lado, limita outro e perpetua a fragmentação. O resultado é um setor que avança de forma desigual e permanece limitado como projeto nacional de desenvolvimento.

