Restaurar florestas é investimento em segurança econômica

Brasil pode fazer da restauração florestal um seguro verde contra os efeitos da crise climática.

agronegócio e o governo brasileiros já provaram que sabem enfrentar desafios complexos com planejamento, coordenação e engajamento. A trajetória de erradicação da febre aftosa – uma doença que afetava o rebanho bovino – é um exemplo claro. Pressionado por restrições de acesso ao mercado internacional, o Brasil estruturou o Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PNEFA) e, em poucas décadas, saiu da vulnerabilidade sanitária para se tornar referência global. Essa transformação abriu mercados e fortaleceu a pecuária nacional.

A lição central desse processo — resposta coerente e sustentada a uma barreira concreta — deve agora inspirar uma nova agenda: fazer da restauração florestal um seguro verde contra os efeitos da crise climática.

Assim como a aftosa comprometia a competitividade da carne bovina, os eventos extremos já prejudicam a produtividade agrícola, afetam a segurança hídrica e colocam em risco a estabilidade econômica do país. Segundo pesquisa do Banco Central em 2024, 44% das instituições financeiras relataram impactos desses eventos, contra 17% em 2023.

As consequências incluem paralisações produtivas, perda de renda dos clientes e maior demanda por renegociação de crédito, elevando o risco sistêmico no setor.

Uma das soluções-chave para a crise climática no Brasil é reflorestar, pois florestas protegem o solo, promovem a geração de chuvas e permitem a continuidade da produção. Por exemplo, um estudo liderado pela Universidade de São Paulo mostrou que 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Floresta Amazônica foram causados pelo desmatamento.

O Brasil tem uma “frente de expansão” óbvia para a restauração florestal com escala sem pressionar a produção agropecuária: pastagens degradadas. A rede MapBiomas mostrou que, embora a qualidade média tenha melhorado, ainda havia 40 milhões de ha de pastagens severamente degradadas em 2023 ou o equivalente a duas vezes o território do Paraná.

A experiência do plano contra a febre aftosa mostra que mudanças estruturais exigem metas de longo prazo, fases bem definidas e coordenação nacional. O Brasil já desenvolveu o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), mas não destinou recursos em escala compatível, nem estruturou uma linha de financiamento de longo prazo que o viabilize plenamente. Isso precisa mudar.

Outro aprendizado do PNEFA é a corresponsabilidade dos produtores. A adesão dos pecuaristas foi decisiva para o sucesso da campanha de vacinação contra a febre aftosa. Da mesma forma, a adesão dos agricultores é indispensável para escalar o reflorestamento. Mas, para isso, é essencial incentivos claros e governança: crédito condicionado ao desempenho produtivo e ambiental, pagamentos por serviços ambientais, certificações com valor de mercado e monitoramento de desempenho.

O Brasil já subsidia o setor rural por meio de crédito público e instrumentos como CRA e LCA, que isentam pessoas físicas de Imposto de Renda. Esses incentivos barateiam o capital com impostos pagos por toda a população. Parte desses recursos pode — e deve — ser usada para financiar o seguro verde: a restauração da vegetação nativa. Dinheiro público deve gerar benefício público — como solo conservado, água disponível e produção estável. É hora de redesenhar os incentivos.

Outras regras brasileiras podem induzir o reflorestamento. O Código Florestal é claro quanto às obrigações de recomposição de áreas desmatadas ilegalmente. A arrecadação de multas ambientais poderia também gerar recursos para investir na restauração.

Para tanto, é necessário tornar a cobrança efetiva após decisões do STJ que confirmaram a validade de R$ 29 bilhões em multas do Ibama. A arrecadação de metade desse valor permitiria reflorestar cerca de 1,5 milhão de hectares.

A COP30, que ocorrerá em Belém, onde países discutirão políticas para lidar com a crise climática, também abre uma oportunidade estratégica. O Brasil tem proposto acordos de financiamento internacional para florestas. Se conseguir, o país poderia aumentar ainda mais a escala do reflorestamento.

Outra abordagem seria direcionar parte dos recursos da exportação para o seguro verde. As exportações agropecuárias e florestais de reflorestamento em 2024 chegaram a cerca de R$ 954 bilhões. Um programa que arrecadasse 1% sobre esse valor para o seguro verde, geraria R$ 9,5 bilhões, o que seria suficiente para restaurar quase um milhão de hectares por ano.

Mas, mesmo sem depender de um consenso internacional imediato e de novos acordos, o país pode começar com os recursos internos.

O monitoramento é outro pilar central. O sucesso do PNEFA se apoiou em auditorias e credibilidade internacional. No caso ambiental, o Brasil já dispõe de ferramentas modernas e confiáveis, como o MapBiomas e os sistemas de satélite do INPE, que permitem acompanhar o avanço da restauração rapidamente e com custos baixos. Conectar incentivos a dados públicos verificáveis fortalece a confiança de mercados, consumidores e investidores.

Restauração também gera emprego e renda. Levantamentos do WRI Brasil estimam 0,42 emprego por hectare restaurado (42 empregos a cada 100 hectares), com forte potencial para cadeias de madeira manejada, castanha, cacau e açaí. Essa é uma vantagem concreta em um mundo em que automação e inteligência artificial tendem a transformar (e em parte substituir) ocupações.

Por exemplo, o reflorestamento de dois milhões de hectares por ano geraria cerca de 850 mil empregos considerando a densidade de empregos estimado pelo WRI.

Em resumo, restaurar florestas não é um custo, mas um investimento em segurança econômica. Se a erradicação da febre aftosa abriu mercados e possibilitou a expansão da pecuária brasileira, o reflorestamento pode proteger o setor de riscos climáticos e abrir novas frentes de investimento nas áreas já degradadas. O seguro verde é viável, urgente e necessário.

Falta tratá-lo com a mesma determinação estratégica com que o próprio setor rural com coordenação da política pública já venceu outros desafios.

*Paulo Barreto é pesquisador associado do Imazon / Artigo Globo Rural

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