O que está escondido no solo pode ser a chave para ressuscitar florestas tropicais

Árvores crescerem até duas vezes mais rápido após o desmatamento, supercarregando a captura de carbono e mudando o jogo das estratégias globais de reflorestamento.

Uma nova pesquisa trouxe um alerta que mexe direto com o futuro das florestas tropicais: o que está “escondido” no solo pode acelerar a volta das árvores depois do desmatamento. Em áreas com nitrogênio suficiente, a recuperação acontece até duas vezes mais rápido, especialmente nos primeiros 10 anos, justamente a fase em que o crescimento define se a floresta engrena ou patina.

E isso não é só uma boa notícia para a paisagem. Crescimento mais rápido significa mais captura de carbono da atmosfera, com impacto direto nas estratégias de reflorestamento. O estudo aponta um caminho de gestão mais inteligente, trabalhando com a lógica da natureza em vez de depender de fertilizantes, que podem gerar efeitos colaterais ambientais.

O que os cientistas acompanharam por até 20 anos

A equipe, liderada pela Universidade de Leeds, montou o que descreve como o maior e mais longo experimento para entender como nutrientes afetam o crescimento de novas florestas tropicais.

O foco foram áreas tropicais previamente desmatadas por atividades como exploração madeireira e agricultura, exatamente os cenários em que a recuperação natural vira uma corrida contra o tempo.

Foram selecionadas 76 parcelas florestais na América Central, monitoradas por períodos de até 20 anos.

Os locais tinham idades e tamanhos diferentes, permitindo observar o processo de recuperação com o passar do tempo, acompanhando crescimento e mortalidade de árvores à medida que as florestas se reconstroem.

Como o experimento testou nitrogênio e fósforo na prática

Para isolar o efeito dos nutrientes, as parcelas receberam tratamentos diferentes: algumas ganharam fertilizante com nitrogênio, outras com fósforo, outras com os dois, e um grupo ficou sem tratamento. Esse desenho permitiu comparar como as florestas respondiam quando o “combustível” do subsolo mudava.

O resultado foi direto: o nitrogênio apareceu como o fator decisivo para acelerar a regeneração, especialmente no início. Já o fósforo, quando aplicado sozinho, não gerou o mesmo salto.

O nitrogênio virou o “motor” das florestas jovens

O ponto mais forte do estudo está no timing. Durante os primeiros 10 anos de recuperação, as florestas com nitrogênio adequado avançaram a uma velocidade aproximadamente duas vezes maior do que aquelas com deficiência do nutriente.

Isso importa porque essa primeira década é a fase em que a floresta define sua estrutura, ganha volume, fecha copa e começa a funcionar como um sistema mais estável.

Se o começo é lento, o retorno do ecossistema inteiro atrasa. Se o começo acelera, o ganho de biomassa e de carbono também acelera.

Por que “crescer mais rápido” muda a captura de carbono

Florestas tropicais são alguns dos maiores sumidouros de carbono do planeta. Quanto mais árvores crescem e acumulam biomassa, mais carbono fica armazenado nas plantas, em vez de circular na atmosfera.

A pesquisa estimou que, se a escassez de nitrogênio estiver freando florestas tropicais jovens no mundo, cerca de 0,69 bilhão de toneladas de dióxido de carbono podem deixar de ser armazenadas por ano.

Os autores comparam essa quantidade a aproximadamente dois anos de emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa do Reino Unido. Ou seja: o “freio” do solo pode custar caro para o clima.

Publicação e quem participou do trabalho

Os resultados foram publicados em 13 de janeiro na revista Nature Communications.

O estudo envolveu pesquisadores de várias instituições, incluindo Universidade de Glasgow, Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, Universidade de Yale, Universidade de Princeton, Universidade de Cornell, Universidade Nacional de Singapura e Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas.

O autor principal, Wenguang Tang, conduziu a pesquisa durante o doutorado na Universidade de Leeds e destacou que existe espaço para aumentar captura e armazenamento de gases de efeito estufa via reflorestamento, olhando com atenção para os nutrientes disponíveis às árvores.

Por que os cientistas não recomendam “jogar fertilizante” na floresta

Mesmo tendo usado fertilizante nitrogenado no experimento, a mensagem é clara: eles não recomendam fertilização de florestas como solução em larga escala.

O motivo é que o uso generalizado pode trazer efeitos colaterais, como emissões de óxido nitroso, um gás de efeito estufa potente.

Em vez disso, a proposta é trabalhar com alternativas práticas e alinhadas com a natureza, evitando criar um remédio que gera outro problema climático.

As alternativas “inteligentes” sugeridas pelo estudo

A linha defendida pelos pesquisadores é estratégica: restaurar melhor, não apenas restaurar mais. Entre as opções apontadas, duas ganham destaque:

1) Plantar leguminosas para colocar nitrogênio no sistema naturalmente
A sugestão é usar árvores da família das leguminosas, que adicionam nitrogênio ao solo, ajudando a sustentar o crescimento sem depender de fertilizantes.

2) Priorizar áreas que já têm nitrogênio suficiente
Outra possibilidade é restaurar florestas em locais onde o nitrogênio já é mais abundante, inclusive por efeitos ligados à poluição atmosférica, direcionando esforços para onde a recuperação tende a ser mais rápida.

A lógica por trás disso é simples e forte: não é só plantar árvore, é escolher o terreno onde ela vai disparar.

O timing político: COP30 e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre

O estudo foi divulgado poucas semanas após o encerramento da COP30 no Brasil, quando foi anunciado o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), voltado a apoiar países com florestas tropicais na proteção das áreas existentes e na restauração das que foram danificadas.

A pesquisadora principal, Sarah Batterman, professora associada da Escola de Geografia de Leeds, reforça um ponto central: evitar o desmatamento de florestas tropicais maduras deve seguir como prioridade, mas entender como nutrientes influenciam a recuperação ajuda formuladores de políticas a decidir onde e como restaurar para maximizar o sequestro de carbono.

O que isso muda na prática para reflorestamento

A conclusão que fica é incômoda e poderosa: o subsolo pode decidir o sucesso do reflorestamento. Se a estratégia ignora nutrientes, pode acabar investindo pesado em áreas onde a floresta vai demorar muito mais a “pegar no tranco”. Se considera o nitrogênio, pode direcionar ações para acelerar a volta das florestas e aumentar a captura de carbono no ritmo que a crise climática exige.

No fim, a pergunta que vira debate é simples: você acha que os projetos de reflorestamento deveriam priorizar primeiro as áreas onde o solo já dá vantagem para as florestas crescerem mais rápido?

Informações: Click Petróleo e Gás

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