Nesta edição do PROMAB News, trazemos uma análise baseada no artigo de revisão recentemente publicado: “The Myth That Eucalyptus Trees Deplete Soil Water—A Review” (Medeiros et al., 2025). Este estudo revisou 200 trabalhos publicados entre 1977 e 2024 para reavaliar o senso comum de que o eucalipto “seca o solo” com evidências científicas sólidas. Consideramos este, um assunto pertinente para as empresas filiadas ao PROMAB, que vivenciam essa temática e, sabendo de sua importância estratégica, munem-se de dados por meio do monitoramento hidrológico nas microbacias experimentais. Embora se trate de um artigo de revisão, ou seja, não foram coletados e analisados dados diretamente, este tipo de trabalho é importante na consolidação do conhecimento, mas deve ser sempre analisado com ressalvas.
Os resultados da revisão bibliográfica demonstraram que o impacto na disponibilidade de água não é uma característica inerente ao gênero Eucalyptus, mas, sim, um resultado da interação entre o manejo florestal, as condições do solo e o clima local. Historicamente, a narrativa de que o eucalipto esgota os recursos hídricos surgiu entre os séculos XVII e XIX, quando a espécie era utilizada propositalmente para biodrenagem em áreas alagadas visando combater a malária. Infelizmente, essa função específica de drenagem foi erroneamente generalizada para todos os tipos de ecossistemas ao longo das décadas. Complementamos que o manejo inadequado de alguns dos primeiros plantios introduzidos no Brasil pode ter contribuído para que este mito se perpetuasse injustamente até os dias de hoje, sem considerar os enormes avanços da silvicultura brasileira ocorrido nos últimos 50 anos.
Contudo, a ciência moderna demonstra que a demanda hídrica do eucalipto é comparável à de diversas espécies nativas (pioneiras e de crescimento rápido). Estudos citados na revisão mostram que em estados como São Paulo e Minas Gerais, a evapotranspiração do eucalipto foi registrada como similar ou até inferior à da Mata Atlântica e do Cerrado. Neste ponto, os resultados de 30 anos de monitoramento do PROMAB mostram que em média, o manejo dos plantios na escala de microbacia tem evapotranspiração um pouco maior que a vegetação nativa. Contudo, isto é esperado de qualquer espécie manejada para a produtividade em sistema de plantio.
O estudo cita ainda que, apesar da alta demanda hídrica de espécies de crescimento rápido como o Eucalipto, quando bem manejado, ele atua na abertura de macroporos no solo através de suas raízes finas, o que favorece significativamente a infiltração de água. Dados comparativos em bacias pareadas revelaram taxas de infiltração de 68 a 175 mm/h em plantios de eucalipto, enquanto áreas de pastagem na mesma região apresentaram apenas 47 a 50 mm/h. Isso resulta em menor escoamento superficial, redução de sedimentos na água e uma clara melhoria na recarga do lençol freático. Estes resultados são compatíveis com o que observamos nos monitoramentos do PROMAB, que mostram boa infiltração de água no solo nas áreas monitoradas de manejo florestal.
O artigo reforça que o “vilão” não é a árvore, mas o manejo por ventura inadequado que ignora a capacidade de recarga local. Para as empresas florestais, o estudo destaca estratégias fundamentais que o PROMAB já adota como recomendação para o planejamento dos plantios: como entender as limitações hídricas regionais e adaptar o manejo florestal considerando a ocupação da bacia, o mosaico de idades, e ajustar a intensidade do manejo florestal na microbacia quando avaliado ser necessário (ver mais informações em Ferraz et a., 2019).
A revisão científica demonstra que, quando o cultivo respeita o zoneamento, utiliza espaçamentos adequados e mantém a cobertura de floresta nativa recomendada (cerca de 45% para serviços ecossistêmicos), a atividade florestal contribui para a regulação do ciclo hidrológico e a proteção do solo. O monitoramento em escala de microbacia realizado pelas empresas do PROMAB é a peça final deste quebra-cabeça, comprovando em campo, nos riachos, o resultado do manejo florestal na água, e transformando evidências científicas globais em segurança operacional e sustentabilidade local.
Como ilustração comparativa, a Figura 1 apresenta valores mínimos e máximos de evapotranspiração associados a diferentes culturas agrícolas e formações vegetais, permitindo contextualizar o posicionamento do eucalipto em relação a outros sistemas de uso do solo. Observa-se que os valores de evapotranspiração do eucalipto se situam, em muitos casos, em faixas semelhantes ou inferiores às de culturas como milho e batata. Embora o estudo traga estas comparações obtidas nos estudos consultados, essa comparação deve ser interpretada com cautela, uma vez que culturas de ciclo anual apresentam dinâmicas fisiológicas e temporais, além de práticas de manejo distintas das florestas plantadas, que possuem ciclos mais longos e maior complexidade estrutural. Assim, o gráfico deve ser entendido como uma referência indicativa, e não como uma equivalência direta entre sistemas produtivos distintos. Ou seja, não se pode dizer que o cultivo de Eucalipto utiliza menos água do que os cultivos de cana-de-açúcar, batata ou milho com base neste tipo de abordagem, algo que já foi bastante disseminado de forma equivocada e precisa ficar bem claro.
Figura 1. Consumo de água de espécies agrícolas e florestais em comparação com Eucalyptus. O asterisco (*) indica que o nome da espécie deveria estar está em itálico, representando seu nome científico. Os valores de evapotranspiração (mm/ano) correspondem ao consumo mínimo e máximo de água para cada espécie, com base em diferentes fontes da literatura. Dados de ¹ White et al. [116], ² Hutley et al., ³ White et al., ⁴ Dias et al., ⁵ FAO, ⁶ El-Abedin et al., ⁷ Boer et al.
Em conclusão, o papel do zoneamento agroclimático é enfatizado como a diretriz mestra para a expansão florestal sustentável, apoiando-se em ferramentas como o ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), que avalia riscos como geadas e disponibilidade hídrica; o ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico), que integra variáveis sociais e ambientais; e o ZEC (Zoneamento Edafoclimático), que foca na compatibilidade entre as características do solo e o clima. Essas ferramentas permitem identificar áreas de menor risco para assegurar a viabilidade econômica e ambiental da atividade, alinhando as demandas de produção com a capacidade de carga local e a manutenção de serviços ecossistêmicos.
O artigo argumenta que os casos de impacto negativo documentados na literatura ocorreram justamente em regiões onde o plantio ignorou esses zoneamentos ou utilizou espécies inadequadas para climas distintos. A Figura 2 abaixo, apresenta um mapeamento de aptidão para 47 espécies de eucalipto no território brasileiro, servindo como guia para que a escolha dos genótipos respeite as limitações de cada ecossistema e previna a escassez hídrica.
Figura 2. Zoneamento agroclimático para 47 espécies de eucalipto no Brasil com base na classificação climática de Köppen. Fonte: modificado de Flores et al.
Dentro dessa abordagem de planejamento, o PROMAB tem como produto o índice de resiliência (IR), que por meio da análise geoespacial de características naturais (relevo, solos, precipitação, evapotranspiração) e aspectos do manejo florestal (ocupação e idade dos plantios), permite a classificação das sub bacias de toda a área da empresa em classes de maior ou menor resiliência hidrológica. O resultado vem subsidiando decisões estratégicas, como planejamento do uso e expansão das áreas produtivas, ajuste do manejo florestal em áreas críticas e definição de estratégias de mitigação de impactos do manejo florestal.
Esse trabalho também pode ser acessado diretamente no site do IPEF: https://www.ipef.br/
Equipe PROMAB
Isadora Tomazini
Bruna Lopes
Prof. Dr. Silvio Ferraz



