A exposição à fumaça de incêndios florestais pode estar associada a cerca de 24,1 mil mortes por ano nos Estados Unidos, segundo estudo publicado na revista científica Science Advances. A pesquisa analisou dados entre 2006 e 2020 e reforça alertas sobre os impactos da crise climática na saúde pública.
Os incêndios têm se tornado mais frequentes, intensos e duradouros com o aquecimento global. Apesar disso, os efeitos da exposição prolongada à fumaça ainda são pouco compreendidos.
“Não encontramos evidências de um nível seguro para exposição crônica à fumaça de incêndios florestais. Trata-se de um problema de saúde pública muito preocupante”, afirmou o autor principal do estudo, Min Zhang, pesquisador da Escola de Medicina Icahn, do hospital Mount Sinai, em Nova York, em entrevista à AFP.
Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de políticas para reduzir as emissões que impulsionam o aquecimento global e também de medidas locais de adaptação. Entre as recomendações estão sistemas de alerta precoce para poluentes e o uso de filtros portáteis em residências, escolas, hospitais e escritórios.
O tema ganhou ainda mais relevância após os incêndios recordes no Canadá, em 2023, que expuseram centenas de milhões de pessoas à fumaça tóxica.
Associação com doenças neurológicas
Para estimar os impactos da fumaça, os cientistas cruzaram registros de mortalidade de 3.068 condados dos Estados Unidos continentais com dados de satélite sobre incêndios. O estudo focou em partículas finas liberadas pela queima de vegetação, que podem conter compostos cancerígenos e metais pesados.
Os resultados apontaram aumento na mortalidade geral associado à exposição prolongada à poluição. As doenças neurológicas, como demência e Parkinson, apresentaram a relação mais forte, seguidas por enfermidades cardiovasculares, distúrbios endócrinos e câncer.
“Tradicionalmente, o foco está nas doenças respiratórias e cardiovasculares, mas nossos dados sugerem que o cérebro pode ser ainda mais vulnerável”, disse o pesquisador Yaguang Wei, coautor do estudo.
Impactos maiores em áreas rurais e entre jovens
Os efeitos foram mais intensos em regiões rurais, possivelmente por estarem mais próximas das áreas de incêndio. A pesquisa também indicou maior impacto entre pessoas mais jovens, possivelmente porque passam mais tempo ao ar livre.
Os autores observaram ainda que temperaturas mais baixas podem aumentar os riscos. Verões mais amenos incentivam atividades externas, enquanto invernos frios dificultam a dispersão da fumaça.
O número estimado de mortes é mais que o dobro de uma projeção anterior, publicada em 2024 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Ainda assim, os pesquisadores afirmam que o total pode estar subestimado, já que a análise foi feita com dados amplos, por condado, e não em escala mais detalhada.
Informações: Um Só Planeta

