Florestar nos anos 2000: o período que estruturou a entidade para novos ciclos

Entre reorganização interna, diálogo técnico com o poder público e diplomacia setorial, a Florestar atravessou os anos 2000 preparando o terreno para novos ciclos de investimento e fortalecimento.

Em um setor marcado por ciclos longos, decisões estruturais e forte interação com políticas públicas, a história das entidades representativas é tão estratégica quanto a evolução tecnológica no campo. No estado de São Paulo, a Florestar construiu, ao longo de mais de três décadas, um papel central na articulação entre empresas, poder público e sociedade.

Se a fundação nos anos 1990 estabeleceu as bases dessa atuação, foi nos anos 2000 que a entidade passou por uma fase decisiva de reorganização institucional e avanço no diálogo técnico, preparando-se para enfrentar novos desafios e ciclos de crescimento do setor florestal.

Segundo Caio Zanardo, hoje diretor de Sustentabilidade da Suzano e à época membro do Conselho, a década foi marcada por um processo consciente de enxugamento da estrutura e redefinição de prioridades.

Caio Zanardo

“A Florestar passou a organizar melhor suas agendas, alinhar expectativas dos associados e reduzir uma atuação excessivamente reativa, adotando uma visão estratégica de médio prazo”, afirma Zanardo. Essa mudança permitiu maior clareza sobre o papel institucional da entidade e criou bases mais sólidas para sua atuação futura.

Relevância institucional e visão estratégica de longo prazo

O contexto do setor florestal paulista nos anos 2000 impunha desafios específicos. Mesmo sendo um estado com tradição, arcabouço regulatório robusto e histórico consolidado, São Paulo atravessava um período com poucos novos investimentos florestais.

Diante desse cenário, a Florestar optou por uma postura estratégica de preparação institucional. “A entidade fortaleceu o relacionamento com o poder público estadual, estruturou o monitoramento da legislação municipal e passou a acompanhar de forma sistemática as agendas regulatórias”, explica Zanardo.

Essa atuação preventiva contribuiu para criar um ambiente mais previsível e seguro, fundamental para que, anos depois, novos investimentos voltassem a ocorrer no estado.

Governança, técnica e diálogo com o poder público

João Carlos Augusti, que participou ativamente das discussões e articulações da entidade naquele período, destaca que os anos 2000 foram fundamentais para o fortalecimento da governança da Florestar e da sua credibilidade institucional.

“O diálogo técnico com órgãos como a CETESB e a Secretaria do Meio Ambiente foi intensificado, sempre com base em conhecimento técnico e coerência institucional”, afirma. Segundo ele, a entidade se consolidou como referência estadual ao integrar produtores e fornecedores de florestas plantadas, oferecendo uma visão multissetorial do setor.

João Carlos Augusti / Divulgação

Temas como manejo sustentável, expansão das plantações e adequação às normas ambientais dominaram a agenda, além do acompanhamento atento das discussões que culminariam, anos depois, na revisão do Código Florestal.

Fortalecimento das lideranças técnicas

Um diferencial importante da Florestar naquele período foi o fortalecimento das lideranças técnicas, que atuavam de forma constante nas relações com o poder público. Para Augusti, esse trabalho foi essencial para criar relações de confiança com as agências reguladoras.

“Esse relacionamento técnico e institucional garantiu coerência nas discussões e contribuiu para avanços importantes no alinhamento das pautas estratégicas”, avalia.

Transformações do setor e novos ciclos de crescimento

Já João Pedro Pacheco, que foi coordenador, presidente e vice-presidente da entidade, contextualiza a trajetória da Florestar dentro de um período mais amplo de transformações do setor florestal brasileiro. Segundo ele, a partir da década seguinte, especialmente entre 2010 e 2020, o setor viveu um ciclo de forte expansão, impulsionado pela valorização da celulose, entrada de fundos de investimento e avanço da mecanização.

“A profissionalização do setor, a chegada de grandes fundos e o salto em produtividade com melhoramento genético e mecanização mudaram o patamar da atividade florestal no Brasil”, destaca.

João Pedro Pacheco / Divulgação

Esse novo cenário encontrou uma Florestar mais estruturada, preparada institucionalmente e com governança amadurecida para representar os interesses do setor.

Reestruturação e reconstrução institucional

Pacheco também relembra que, a partir de 2014, a Florestar atravessou um período de transição, marcado por ajustes internos e pela reconfiguração do quadro associativo.

Algumas mudanças no cenário setorial e institucional levaram a uma redução temporária no número de associados, o que exigiu uma revisão da estrutura administrativa e financeira da entidade. Esse momento, no entanto, serviu como ponto de inflexão para uma reorganização profunda, que abriu espaço para um novo ciclo de fortalecimento, profissionalização da gestão e retomada do crescimento institucional.

“Foram feitas mudanças no estatuto, identidade visual, modelo de gestão e estrutura de custos. A associação passou a operar com governança corporativa, metas, indicadores e rigor orçamentário”, relata.

O comprometimento das empresas associadas foi decisivo nesse processo. “Quando os associados acreditam no trabalho coletivo, a entidade ganha força e legitimidade”, afirma.

O legado dos anos 2000

Na avaliação dos entrevistados, o principal legado dos anos 2000 foi a construção de uma Florestar resiliente, técnica e institucionalmente preparada para enfrentar diferentes ciclos do setor florestal.

A adoção de uma atuação baseada em diálogo, diplomacia corporativa e construção de pontes — em vez de confronto permanente — consolidou a entidade como interlocutora legítima junto ao poder público e demais atores do setor.

“Esse espírito construtivo, aliado à governança e ao comprometimento associativo, é um legado que permanece até hoje”, conclui Pacheco.

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