Por José Otávio Brito e Moacir Reis
O carvão vegetal constitui um dos combustíveis sólidos mais tradicionais da matriz energética brasileira, sendo utilizado tanto em atividades industriais quanto no preparo de alimentos. No Brasil, seu principal uso ocorre na siderurgia, especialmente na produção de ferro-gusa. Entretanto, o carvão vegetal também possui papel relevante no preparo de alimentos, particularmente no churrasco, prática profundamente enraizada na cultura alimentar brasileira.
No Mato Grosso do Sul, essa dualidade de usos torna o carvão vegetal um produto de significativa relevância econômica e sociocultural. Apesar disso, o consumo associado ao churrasco — tanto doméstico quanto comercial — raramente aparece de forma explícita nas estatísticas energéticas ou nas análises setoriais.
O consumo de carvão vegetal no estado pode ser dividido em três segmentos principais, concentrados no uso industrial, principalmente na produção de ferro-gusa, uso comercial, em churrascarias e restaurantes especializados em carnes, e uso doméstico, associado ao preparo de churrascos.
Considerando-se a quantidade de cerca de 900 mil domicílios do estado e a realização, em cada um deles, de 4 eventos/ano ligados ao preparo de carne mediante churrasco, estima-se um consumo mínimo de 13,5 mil toneladas de carvão vegetal associado ao uso do carvão vegetal.
O carvão vegetal destinado ao churrasco domiciliar é comercializado principalmente no varejo, em embalagens de pequeno volume. O preço médio de mercado situa-se em torno de R$ 5,00/kg, ou seja, R$ 5.000,00/tonelada. Assim, considerando o consumo total, o mercado direto de carvão vegetal destinado ao churrasco domiciliar no Mato Grosso do Sul pode movimentar aproximadamente R$ 45 milhões/ano.
Quando se consideram os demais itens associados à realização de churrascos, além do carvão vegetal (carnes, bebidas e acompanhamentos), o impacto econômico torna-se ainda mais importante. Considerando um gasto médio de, aproximadamente, R$ 40,00/evento, obtém-se um adicional de movimentação financeira da ordem de R$ 144,00 milhões/ano.
Além do consumo doméstico, o carvão vegetal também é amplamente utilizado em churrascarias e restaurantes especializados em carnes. Nesse contexto, o carvão vegetal representa um insumo energético essencial para a geração desse valor econômico, pois constitui a base do método tradicional de preparo das carnes nesses estabelecimentos.
Em média, pode-se estimar que uma churrascaria típica pode preparar aproximadamente 30 kg de carne/dia, com consumo equivalente de carvão vegetal. Estima-se que no MS existam, no mínimo, 170 churrascarias, o que resultaria num consumo anual desse segmento da ordem de 1,7 mil toneladas de carvão vegetal.
Em termos de movimentação financeira, considerando somente o carvão vegetal, isso significaria, minimamente, R$ 2,1 milhões/ano.
O Mato Grosso do Sul também apresenta consumo relevante de carvão vegetal na siderurgia. O carvão vegetal é utilizado como agente redutor na produção de ferro-gusa. A capacidade instalada das unidades siderúrgicas do estado é da ordem de 540 mil toneladas de ferro-gusa por ano.
Considerando parâmetros médios de consumo, o setor pode demandar, aproximadamente, 450 mil toneladas de carvão vegetal, significando uma movimentação financeira da ordem de R$ 60 milhões/ano.

A análise apresentada evidencia que o carvão vegetal no MS possui múltiplas dimensões econômicas e culturais. Enquanto o setor siderúrgico concentra os maiores volumes físicos de consumo, o segmento associado ao churrasco apresenta maior capacidade de geração de valor econômico.
Um aspecto particularmente relevante do segmento ligado ao churrasco é que a maior parte dessa cadeia econômica permanece dentro do próprio estado, envolvendo produtores de carne bovina, supermercados, açougues, distribuidores de carvão vegetal e consumidores locais. No caso do consumo industrial, parcela significativa do valor agregado dessa cadeia ocorre fora do estado, onde o ferro-gusa é transformado em outros produtos metalúrgicos de maior valor agregado.
Historicamente, a atividade carvoeira tem sido frequentemente associada a estigmas e percepções negativas, o que contribui para a desvalorização do produto, do produtor e do distribuidor do insumo. Entretanto, quando analisado no contexto mais amplo da sua cadeia, principalmente mediante a inclusão do segmento alimentar e gastronômico, o carvão vegetal revela-se um insumo estratégico de grande relevância econômica. Nesse contexto, deve-se ainda associar a relevância social e cultural envolvida na participação direta de milhares de pessoas nos eventos em que sua presença é quase que indispensável. Além disso, é importante incluir sua relevância no quesito da saúde humana, por ser um produto diretamente ligado à ingestão de alimentos.
Nesse sentido, torna-se fundamental promover maior atenção institucional e setorial ao tema, incluindo: a) realização de diagnósticos mais precisos do mercado estadual de carvão vegetal; b) estímulo à certificação e rastreabilidade do produto; c) definição de padrões de qualidade para carvão destinado à gastronomia; e d) valorização econômica da produção sustentável de carvão vegetal.
A valorização dessa cadeia pode representar oportunidade concreta de agregação de valor ao produto e aumento da renda dos produtores, além de fortalecer um setor que integra aspectos energéticos, econômicos e culturais da sociedade sul-mato-grossense.

