Por José Otávio Brito, Professor Titular Sênior -ESALQ/USP
CONFLITOS E SEGURANÇA ENERGÉTICA
A segurança energética tornou-se novamente um tema central no cenário global, não como fenômeno isolado, mas como expressão recorrente de fragilidades estruturais associadas ao modelo energético dominante. A crise energética europeia, intensificada a partir de 2022, evidenciou de forma clara a vulnerabilidade decorrente da elevada dependência do gás natural importado, especialmente de origem geopolítica concentrada.
De maneira complementar, os conflitos recentes no Oriente Médio reforçam essa mesma condição no que se refere ao petróleo, principal vetor energético da economia global. A instabilidade na região impacta diretamente rotas críticas de abastecimento, amplificando riscos de descontinuidade no fornecimento e provocando variações expressivas de preços em curtos intervalos de tempo.
Entretanto, tais episódios não constituem eventos isolados. Ao contrário, reproduzem um padrão histórico já observado nas crises energéticas das décadas de 1970 e 1980, quando choques no fornecimento de petróleo provocaram profundas disrupções econômicas globais. Naquele período, a concentração da produção em regiões politicamente sensíveis revelou-se fator crítico de instabilidade, levando países industrializados a adotarem estratégias emergenciais de diversificação energética.
Ainda assim, ao longo das décadas seguintes, a expansão das cadeias globais de energia e a busca por eficiência econômica resultaram na reconstituição de padrões de dependência estrutural, agora ainda mais amplificados pela escala e integração do sistema energético mundial.
Nesse sentido, a atual conjuntura não representa uma ruptura inédita, mas sim a reedição de um ciclo recorrente de vulnerabilidade. A dependência de combustíveis fósseis, concentrados em regiões geopoliticamente instáveis, mantém o sistema energético global permanentemente exposto a choques de oferta e volatilidade de preços. A questão que se impõe, portanto, não é apenas a gestão da crise atual, mas a inevitabilidade de crises futuras: se os fundamentos estruturais permanecem inalterados, a pergunta deixa de ser se haverá uma nova crise energética e passa a ser quando ela ocorrerá.
É nesse contexto que a biomassa florestal assume relevância estratégica. Diferentemente dos combustíveis fósseis, sua produção pode ser territorialmente distribuída, reduzindo a dependência de regiões específicas e aumentando a resiliência dos sistemas energéticos. Assim, mais do que uma alternativa renovável, a biomassa florestal deve ser compreendida como componente estrutural de segurança energética em um mundo caracterizado por instabilidade geopolítica recorrente.
VANTAGENS ESTRUTURAIS DA BIOMASSA FLORESTAL NO SISTEMA ENERGÉTICO
A biomassa florestal apresenta características que a qualificam como fonte energética com atributos estruturais diferenciados. Ao contrário de fontes fósseis, sua produção não está concentrada em regiões geopoliticamente sensíveis, podendo ser territorialmente distribuída e integrada a diferentes contextos produtivos. Adicionalmente, distingue-se de outras fontes renováveis, como a energia eólica e a solar, por não apresentar intermitência operacional, que impactam, sensivelmente, a geração contínua de energia.
Enquanto essas dependem de condições climáticas variáveis, a biomassa permite controle direto sobre o momento de uso da energia, podendo ser estocada, transportada e utilizada conforme a demanda. Essa característica confere previsibilidade e estabilidade ao sistema energético.
Outro aspecto relevante é sua capacidade de integração com sistemas produtivos existentes, especialmente em regiões com forte base agroindustrial e florestal. Essa flexibilidade operacional, associada à possibilidade de produção descentralizada, reduz a necessidade de grandes infraestruturas de transmissão e aumenta a resiliência do sistema energético como um todo.
O MODELO BRASILEIRO COMO RESPOSTA
Se os conflitos recentes evidenciam a vulnerabilidade estrutural dos sistemas energéticos baseados em combustíveis fósseis, o caso brasileiro oferece um contraponto relevante, ao demonstrar, na prática, a viabilidade de um modelo energético parcialmente ancorado em biomassa florestal. Diferentemente de países cuja segurança energética está fortemente condicionada à importação de petróleo e gás, o Brasil consolidou, ao longo das últimas décadas, uma base produtiva que incorpora fontes renováveis de forma estruturada, onde a biomassa de origem florestal tem papel relevante. Esse aspecto é central.
O Brasil possui um exemplo claro da possibilidade de se integrar a biomassa florestal aos processos industriais de alta demanda energética, com requisitos rigorosos de regularidade, padronização e confiabilidade, implicando na existência de uma base florestal planejada, cadeias logísticas estruturadas e sistemas produtivos contínuos. Trata-se da utilização de carvão vegetal na siderurgia. É um caso singular em escala global

