Fonte: Um Só Planeta
O conflito no Golfo Pérsico pode gerar uma recessão global. Se estamos em uma posição privilegiada, isso se deve em boa parte aos nossos ativos ambientais.
O agravamento das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã coloca o mundo diante de um cenário de incerteza que não se via há décadas. O risco de uma disrupção no Estreito de Ormuz — a principal artéria do petróleo global — projeta sombras de recessão sobre as grandes economias. No entanto, em meio a essa arquitetura de instabilidade, o Brasil emerge com uma configuração econômica única, capaz de transformar a crise externa em uma oportunidade de consolidação estratégica. Mas essa ascensão possui uma condição inegociável: a governança ambiental.
Enquanto o mundo teme o “choque do petróleo”, o Brasil se posiciona como um dos poucos países que caminha para a autossuficiência e exportação líquida, com a vantagem competitiva de possuir uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta. Com 98% de sua geração elétrica proveniente de fontes renováveis e gás natural, o país está blindado contra crises de desabastecimento elétrico que assolam a Europa.
Mais do que isso: nossa frota de carros flex e a robusta produção de etanol funcionam como um amortecedor macroeconômico. Temos tecnologias de sobra para expandir o uso de biocombustíveis de diversas fontes vegetais para substituir em parte o diesel. Em um cenário de escalada do barril de petróleo, o Brasil tem a capacidade necessária para mitigar o impacto nos transportes, algo que economias desenvolvidas ainda lutam para implementar via eletrificação.
Mas, peraí, Alexandre Mansur, se você está pregando etanol e outros biocombustíveis como substituto para os derivados de petróleo, isso significa expandir a produção nacional, aumentando a área plantada. Para isso precisamos derrubar florestas? Não. Terra desmatada é o que o Brasil tem de sobra. O Brasil tem tanta terra aberta que está jogando fora. Só na Amazônia Legal, estudos realizados pelo pesquisador Paulo Barreto, do Imazon e do projeto Amazônia 2030, mostram que existem 40 milhões de hectares de pastos degradados, que podem ter uso mais adequado. Em todo o país, segundo o Mapbiomas, há um total de 102 milhões de hectares de pasto degradado. Tudo isso é mais que suficiente para qualquer necessária expansão da cana do Brasil, que hoje ocupa um total de 9,87 milhões de hectares.
Nossa capacidade de produzir combustíveis a partir de base vegetal só existe porque temos, além de sol e terra abundante, um fornecimento de chuva. Essa chuva vem da Amazônia.
Fundamental para sustentar essa vantagem competitiva é a compreensão de que a Amazônia funciona como uma gigantesca bomba d’água para o continente. Através da evapotranspiração, a floresta lança na atmosfera os chamados “rios voadores”, que transportam umidade para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Essa dinâmica é a engrenagem vital que garante o regime de chuvas necessário para a produtividade recorde do nosso agronegócio e para o enchimento dos reservatórios das hidrelétricas. Sem a floresta em pé, o risco de secas prolongadas coloca em xeque a exportação de grãos e eleva o custo da energia para a indústria nacional, provando que o desmatamento é, na prática, um processo de autossabotagem econômica.
Além de zerar o desmatamento e recuperar florestas, nossa estratégia deve se basear na transformação da agricultura. A adoção em larga escala de sistemas de agricultura regenerativa surge como um escudo contra a volatilidade do dólar e das cadeias de suprimentos globais. Ao cuidar das florestas, priorizar a saúde do solo, a rotação de culturas e o uso de bioinsumos — como fixadores biológicos de nitrogênio e defensivos naturais —, o produtor brasileiro reduz drasticamente a dependência de fertilizantes NPK e pesticidas sintéticos, cujos preços são dolarizados e vulneráveis a conflitos em regiões como o Leste Europeu.
Essa transição para uma “indústria biológica” dentro da porteira não apenas melhora a margem de lucro diante de um câmbio desfavorável, mas confere ao Brasil uma autonomia estratégica sem precedentes, desatando o nó logístico e geopolítico que historicamente condicionava nossa produtividade a insumos estrangeiros.
Isso é nossa proteção.
Não é à toa que no novo paradigma econômico, o controle do desmatamento não é apenas uma pauta ecológica, é uma pauta de soberania financeira. Em um momento em que a Europa e a China buscam parceiros confiáveis para garantir sua segurança alimentar e energética, o desmatamento ilegal da Amazônia torna-se o principal argumento para barreiras não-tarifárias. Se o Brasil quer se consolidar como o porto seguro das commodities globais, a governança ambiental precisa ser vista como o seguro das nossas exportações.
O saldo final é claro: o Brasil possui os ativos que o século XXI exige em tempos de crise — energia limpa, comida e petróleo fora de zonas de guerra. Temos a faca e o queijo na mão para sermos o destino predileto do capital global que foge da instabilidade do Oriente Médio. Entretanto, a chave desse cofre chama-se governança. Ao erradicar o desmatamento ilegal e promover a agricultura regenerativa, o Brasil deixa de ser apenas um exportador de produtos para se tornar o fiador da estabilidade global. A crise no Golfo apenas acelera a urgência de assumirmos esse papel de liderança responsável.

