Nesta semana, a chilena CMPC deu mais um passo no projeto de instalação de sua nova fábrica de celulose no Brasil ao assinar o contrato de concessão do terreno e construção de um Terminal de Uso Privado (TUP), no Porto de Rio Grande (RS). Também foram firmados contratos para a construção de novas embarcações. Com esses avanços, a companhia reafirmou o cronograma de entrega do projeto para o segundo semestre de 2029.
As iniciativas devem consumir cerca de R$ 3 bilhões do montante aproximado de R$ 24 bilhões previsto pela empresa para a construção da unidade industrial em Barra do Ribeiro (RS). “A estimativa de término das obras [do terminal portuário] é em meados de 2029, com a fábrica entrando em operação dois meses depois, ou seja, tudo está dentro do cronograma”, disse Antonio Lacerda, diretor de celulose da CMPC, em entrevista ao Valor.
O Projeto Natureza, como o empreendimento foi batizado, terá capacidade de produção de 2,5 milhões de toneladas por ano de celulose de eucalipto. O investimento ainda precisa ser aprovado pelo conselho de administração. “Precisamos ter as licenças ambientais para ir ao conselho. Estamos na fase final de aprovações”, afirmou Lacerda. Segundo ele, isso deve acontecer em meados deste ano.
Em relação à base florestal, o executivo disse que a CMPC já possui madeira plantada suficiente para rodar as duas fábricas no país por cinco anos. Além da nova unidade em Barra do Ribeiro, a empresa chilena já opera uma fábrica de celulose no município de Guaíba (RS), com capacidade anual de 2,4 milhões de toneladas de celulose de eucalipto.
Outra frente importante para o projeto é a de capacitação de mão de obra, que tem sido um desafio comum para diversas empresas do setor. Hoje, a CMPC conta com 6,5 mil colaboradores diretos e indiretos, número que deve superar a marca de 10 mil com a entrada em operação da segunda fábrica.
Segundo Lacerda, a empresa já mapeou quando precisará dos novos colaboradores, quais habilidades serão necessárias e o tempo de formação exigido. “Estamos trabalhando junto com entidades do Rio Grande do Sul para capacitar essas pessoas. É um grande desafio, e a tendência é ficar mais complexo, mas estamos nos preparando para que ele seja um pouco menor”, disse.
Momento de ajustes sob efeitos da China e do tarifaço dos EUA
O mercado de celulose atravessa um momento de ajustes após um ano de oscilações. Em 2025, o preço da celulose de fibra curta (BHKP) na China — mercado de referência para a commodity — teve forte recuo, saindo de US$ 540 por tonelada, nos primeiros meses, para US$ 495, em julho. Uma recuperação começou a se desenhar em agosto, com a cotação encerrando o ano em cerca de US$ 560 por tonelada.
A leitura é que, embora o tarifaço de Donald Trump tenha gerado instabilidade no comércio global, a entrada de novos volumes no mercado — principalmente da nova fábrica da Suzano — e o avanço de fábricas integradas na China (que produzem a própria celulose) foram as principais explicações para o cenário desafiador de preços observado no ano passado.
“Ninguém esperava uma oferta de madeira tão grande aos produtores chineses em função da queda da demanda do mercado de construção. Isso alterou a dinâmica do mercado”, observou Lacerda. Na sua avaliação, o movimento de integração de produtores chineses vai continuar, mas a celulose brasileira continua sendo mais competitiva.
Embora os preços da fibra tenham apresentado um leve incremento nos últimos meses, Lacerda avalia que o patamar atual continua desafiador, especialmente para produtores da Europa e dos Estados Unidos, onde as fábricas são mais antigas e menos eficientes. “Temos visto vários fechamentos, e esse movimento deve continuar”, disse. Diante desse cenário, ele mantém um “otimismo cauteloso” em relação ao mercado.
Informações: Valor Econômico

