Acordo entre Mercosul e União Europeia abre nova janela para a celulose brasileira

O processo de ratificação pode levar seis meses ou mais, e não está descartada a inclusão de salvaguardas e mecanismos de reequilíbrio.

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente assinado em 17 de janeiro de 2026, em Assunção (Paraguai), e passa a redesenhar o cenário do comércio exterior brasileiro. Para o setor de papel e celulose, o tratado representa uma oportunidade estratégica de redução tarifária, ampliação de mercado e agregação de valor, com impactos diretos para polos produtores como Mato Grosso do Sul.

Atualmente, a União Europeia já é o segundo maior destino da celulose brasileira, respondendo por 21,1% das exportações do produto, o equivalente a US$ 1,98 bilhão em 2024. Com o acordo, a expectativa do setor é de ganho adicional de competitividade frente a concorrentes globais, especialmente em um mercado reconhecido por pagar preços médios superiores aos praticados na Ásia.

O que prevê o acordo Mercosul–UE
Pelos termos do tratado, a União Europeia se compromete a eliminar tarifas para cerca de 92% das exportações do Mercosul, o que corresponde a aproximadamente US$ 61 bilhões em comércio, em um período de até 10 anos. No caso brasileiro, 82,7% das exportações terão tarifa zero já na entrada em vigor.

Além da celulose, o acordo contempla produtos como carnes, açúcar, etanol, café e manufaturados, ampliando o acesso do Brasil a um mercado de 450 milhões de consumidores. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que o acordo pode elevar a participação do Brasil no comércio internacional de 8% para até 36% ao longo dos próximos anos.

Impacto direto na celulose brasileira
Mesmo com uma retração de 12,9% nas exportações de celulose em 2024, a União Europeia manteve sua posição como mercado estratégico. A avaliação do setor é que o acordo tende a estimular a retomada das vendas, sobretudo de produtos com maior valor agregado, como a celulose solúvel, amplamente utilizada pela indústria têxtil sustentável europeia.

Outro fator relevante é o alinhamento do setor florestal brasileiro às exigências ambientais do bloco, como a EUDR (Regulamento Europeu Antidesmatamento), que impõe rigorosos critérios de rastreabilidade. Grandes empresas brasileiras já utilizam ferramentas como monitoramento por satélite, blockchain e cadeias certificadas, o que pode transformar a exigência ambiental em vantagem competitiva.

Mato Grosso do Sul no centro da estratégia
Em Mato Grosso do Sul, onde a celulose é o principal produto da pauta externa, os efeitos do acordo tendem a ser ainda mais expressivos. Em 2025, o estado exportou cerca de 1 milhão de toneladas de celulose para a União Europeia, o que representou 26% de tudo o que MS vendeu ao bloco, com receita total de aproximadamente US$ 1,3 bilhão e saldo comercial positivo de US$ 812 milhões.

A consolidação do chamado Vale da Celulose, com grandes projetos industriais em Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Inocência e Bataguassu, reforça a expectativa de diversificação da pauta exportadora, maior integração logística e expansão do superávit comercial estadual.

Apesar da assinatura, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais dos países membros. A França segue como principal foco de resistência, com o presidente Emmanuel Macron alegando risco de “concorrência desleal” para agricultores europeus e defendendo cláusulas-espelho ambientais e sanitárias.

O processo de ratificação pode levar seis meses ou mais, e não está descartada a inclusão de salvaguardas e mecanismos de reequilíbrio. O tratado também prevê que o Acordo de Paris seja elemento essencial, permitindo suspensão em caso de descumprimento climático.

A indústria de celulose no Brasil não é apenas um pilar da economia nacional; é um ecossistema bilionário em constante expansão, com investimentos projetados em mais de R$ 100 bilhões na próxima década. O epicentro desse crescimento, o Vale da Celulose em Mato Grosso do Sul, concentra os maiores players globais, uma vasta cadeia de fornecedores e milhares de profissionais. No entanto, este gigante carece de um elo de comunicação centralizado e estratégico que conecte seus diversos agentes e traduza sua importância para a sociedade.


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