Artigo por Sebastião Renato Valverde
O tema do momento não poderia ser outro que não a guerra no Oriente Médio. Sem recorrer a previsões catastróficas como a de terceira guerra mundial, o fato é que seus efeitos já são concretos e profundos. Ainda que conflitos regionais — como o entre Rússia e Ucrânia — também provoquem impactos relevantes, a atual tensão envolvendo Irã e Israel, com apoio dos Estados Unidos, possui um alcance sistêmico muito maior, especialmente sobre o mercado de energia. O barril de petróleo, que orbitava na casa dos US$70, já alcança níveis próximos de US$120, com projeções ainda mais elevadas, US$200. Mesmo que haja reacomodação após a guerra, a insegurança energética já está instalada — e seus efeitos tendem a perdurar por um bom tempo.
É nesse contexto que se propõe uma reflexão: quais são as ameaças e, sobretudo, as oportunidades que esse cenário impõe ao setor florestal brasileiro? Se há alguma “profecia” plausível, ela não reside apenas no comércio internacional de produtos florestais, mas também em transformações tecnológicas e operacionais — em especial, na forma como se realiza a colheita florestal e no aproveitamento de seus resíduos.
Historicamente, crises do petróleo sempre funcionaram como catalisadores de mudança. Desde a Segunda Guerra Mundial até os choques da década de 1970, observa-se um padrão: instabilidade nos mercados, volatilidade de preços, insegurança energética e, como resposta, substituição e inovação. Mesmo países com grandes reservas — como o Brasil, com o monopólio da Petrobras e que figura entre as maiores reservas globais — não estão imunes, já que o petróleo é uma commodity de preço internacional. Os impactos se propagam por cadeias inteiras, desde a de fertilizantes nitrogenados que inflaciona o preço dos alimentos, até às indústrias químicas, plásticas, têxteis, farmacêuticas e de transformação em geral.
O passado brasileiro ilustra bem essa dinâmica. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, restrições ao uso de combustíveis fósseis impulsionaram soluções emergenciais como o gasogênio — tecnologia rudimentar e poluente, posteriormente abandonada. Já na crise dos anos 1970, surgiu o Proálcool: inicialmente instável, mas que evoluiu até consolidar o atual modelo de veículos flex, além do biodiesel e a mais cosmopolita das alternativas refletida no carro elétrico e híbrido, ainda que não sejam plenamente acessíveis.
Na indústria, a substituição de combustíveis fósseis por biomassa já é uma realidade consolidada em muitos segmentos. A geração de vapor e a cogeração a partir de resíduos florestais apresentam custos competitivos, significativamente inferiores aos dos derivados de petróleo. Apesar da crescente participação de fontes intermitentes, como solar e eólica, na geração de eletricidade, a biomassa mantém uma vantagem estratégica: trata-se de uma fonte de energia de base, contínua e previsível.
Nesse cenário, tecnologias como pirólise e gaseificação ganham protagonismo. Diferentemente do gasogênio do passado, soluções modernas permitem a conversão de biomassa em bio-óleo, syngas e biochar — produtos com maior valor agregado e melhor benefício ambiental. A abundância e o baixo custo dos resíduos de plantações florestais colocam o Brasil em posição privilegiada para avançar nesse campo, especialmente em segmentos como celulose, painéis de madeira, metalsiderurgia a carvão vegetal e até mesmo na substituição parcial do diesel por biodiesel derivado de bio-óleo.
Entretanto, essa transição energética traz implicações diretas para a base produtiva florestal: o sistema de colheita. Atualmente, predominam dois modelos principais: o Cut-to-Length (CTL) baseia-se no uso de harvesters que realizam o corte, desgalhamento, descascamento e traçamento da madeira ainda no campo, gerando toras curtas e deixando uma parcela significativa de resíduos — estima-se em até 20% da biomassa — no local. Já o sistema Full-Tree (FT) opera de forma distinta: o corte é realizado por máquinas como o feller buncher, e as árvores inteiras são transportadas para processamento à beira da estrada, permitindo o aproveitamento integral da biomassa lenhosa https://www.maisfloresta.com.br/exclusivo-a-biorrefinaria-e-o-fim-do-porno-florestal/.
A diferença entre os sistemas torna-se estratégica em um contexto de valorização energética dos resíduos. Enquanto o CTL implica perdas relevantes de material lenhoso, o FT viabiliza a captura total desse recurso, com ganhos econômicos estimados — inclusive com redução de custos operacionais. Em um cenário de petróleo caro e pressão por alternativas energéticas, resíduos passam de passivo para ativo https://www.maisfloresta.com.br/exclusivo-fustegando-e-tripudiando-o-transporte-florestal/.
Esse movimento não ocorre isoladamente. A eficiência dos motores a combustão evoluiu significativamente, reduzindo o consumo específico de combustíveis. Caminhões e máquinas tornaram-se mais potentes e econômicos. Paralelamente, mudanças no sistema financeiro internacional — com o fortalecimento de blocos como os BRICS — e a redução da influência histórica da OPEP indicam um rearranjo estrutural no mercado energético global e até na confiabilidade do petrodólares.
Assim, embora guerras possam trazer ganhos de curto prazo para países produtores de petróleo, seus efeitos de longo prazo tendem a acelerar a transição energética e a diversificação de matrizes. Nesse processo, a biomassa — especialmente a florestal — emerge como protagonista.
Por fim, cabe a provocação: se no Estreito de Ormuz, onde não passa boi e nem boiada, muito menos, neste momento, navios petroleiros, pode, paradoxalmente, abrir caminho para uma nova lógica produtiva no setor florestal. A valorização dos resíduos e o avanço das biorrefinarias podem, não apenas transformar a matriz energética, mas também redefinir os sistemas de colheita. Nesse contexto, a pergunta deixa de ser meramente retórica: o que chegará primeiro — uma escalada global do conflito ou o declínio do modelo CTL e dos harvester como padrão dominante?
Se a história das crises energéticas ensina algo, é que a resposta tende a vir menos da geopolítica e mais da capacidade de adaptação tecnológica e produtiva. E, nesse campo, o setor florestal brasileiro pode estar mais próximo da solução do que se imagina.

